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LISBOA
por entre as sombras e o lixo
[Adolfo Luxúria Canibal / Carlos Fortes]
Lisboa, Cais do Sodré:
Quando chega a noite
Com suas caras fugidias,
Olhos dilatados pelo assombro
Deixamos que a cidade nos invada,
Fantasma a embriagar-nos de luz e côr
Num sonho de mil e uma fantasias,
O desejo cruzando os neons
Em projecções plásticas...
O dealer roubou-me,
Levou-me a alma!
Rai's parta o dealer!
E se depois, ao acordarmos,
Acaso reparamos na escuridão que nos cerca,
No leve restolhar que vem do lúgubre canto,
Somos tomados por uma enorme letargia
Que nos deixa permeáveis
Ao frio da madrugada.
É então que as ratazanas,
Abandonando as trevas,
Ficam estáticas, silenciosas,
A verem-nos ir, equilibrando o passo,
Por entre as sombras e o lixo...
O dealer roubou-me,
Levou-me a alma!
Rai's parta o dealer!
Táxi!
Casal Ventoso, se faz favor!
AMESTERDÃO
have big fun
[Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]
Amsterdam. Have big fun. Have big fun. Have big fun.
Entrei no Amstel a toda a velocidade e quase
abalroei um barco-táxi que ia a passar. O piloto
ficou a mandar vir de punho erguido, mas eu
continuei no máximo de aceleração Amstel abaixo.
Adoro sentir o vento frio na cara.
Junto ao Munt Plein acostei e fui dar uma olhada ao
catálogo do Big Fun. Tinham Black Bombaim. Comprei 2
pacotes e enrolei um joint a acompanhar o café.
Depois meti-me no barco e rumei à Red Light.
Apetecia-me sexo ao vivo. Pelas ruas que ladeiam o
canal, a multidão, vagarosa, espreitava as raparigas
nas montras. Acostei frente ao Jimmy's ouvindo o
jazz melancólico que vinha da cave, e entrei no
Barbie. Estava quase vazio. No palco-aquário um
casal iniciava um número de sexo. O homem, de mãos
atadas, tinha uma corda à volta do pescoço, que a
mulher ia apertando com o crescendo da excitação -
morreu enforcado no momento do orgasmo. Gostei da
representação. Enrolei outro joint e saí. Cá fora a
multidão continuava a sua passeata mironante e quase
fui atropelado por um ciclista. Meti-me no barco e
regressei a casa. A toda a velocidade.
Have big fun. Have big fun. Have big fun. Have big
fun.
BUDAPESTE
sempre a rock & rollar
[Adolfo Luxúria Canibal / Carlos Fortes]
Prólogo: Fecha os olhos e deixa-te conduzir.
Estás em Budapeste. Inverno de 91. Ano 1 da queda do
comunismo. É noite desde as 3 da tarde. O tempo está
frio, gelado. Olhas à tua volta e vês uma cidade
escura, de belos edifícios decrépitos, ruínas,
fachadas enegrecidas pela poluição. Por todo o lado,
filas de vendedores do mercado negro. As paredes
estão repletas de cartazes, numa língua impossível,
indecifrável. Tu sentes-te perdido. Mas eu
conduzo-te. Segue-me.
Cá vou eu no meu Traby
De bar em bar a aviar
Sempre a abrir a noite toda
Sempre a rock & rollar
Charro aqui charro ali
Mais um vodka p'ra atestar
Corro Peste corro Buda
Sempre a rock & rollar
As noites de Budapeste
São noites de rock & roll
P'las caves da cidade
São só bandas a tocar
Pondo tudo em alvoroço
Tudo a rock & rollar
Mulheres lindas de morrer
Mini-saias a matar
Não tem fim o reboliço
Tudo a rock & rollar
As caves de Budapeste
São caves de rock & roll
Cá vou eu no meu Traby
De bar em bar a aviar
Sempre a abrir a noite toda
Sempre a rock & rollar
Charro aqui charro ali
Mais um vodka p'ra atestar
Sempre a abrir a noite toda
Sempre a rock & rollar'
As noites de Budapeste
São noites de rock & roll
BARCELONA
encontrei-a na plaza real
[Adolfo Luxúria Canibal / Carlos Fortes]
Encontrei-a na Plaza Real.
Pediu-me lume num ajuntamento.
Transacionavam-se objectos roubados.
Quando surgiu a rusga da guarda civil
Puxou-me; fugimos por uma ruela da arcada.
Puxou-me; fugimos por uma ruela da arcada.
Encontrei-a na Plaza Real.
Corremos as Ramblas entre copos e junkies.
Divertimo-nos que nem doidos pelo Barrió Chino.
O fim da noite foi na Gare Marítima
A ver o sol a nascer no Mediterrâneo
A ver o sol a nascer no Mediterrâneo.
MARRAQUEXE
pç. das moscas mortas
[Adolfo Luxúria Canibal / Carlos Fortes]
Ainda corria o vento quente vindo do deserto
No terreiro a que chamam Jamâa El Fna, o acender dos
lumes iniciou a montagem de dezenas de restaurantes
ambulantes, com o cheiro adocicado das especiarias a
invadir toda a praça.
Vindos das sombras da Medina, encantadores de
serpentes, contadores de histórias, comentadores do
Corão, malabaristas, trapezistas, músicos e toda a
sorte de batoteiros atraíram uma multidão ociosa,
que se arrastava indolente.
Em minutos, Jamâa El Fna deixou de ser uma inóspita
praça escaldante e empoeirada para passar a
fervilhar de actividade, entre o fumo das cozinhas
improvisadas, as luzes das lanternas acabadas de
acender, o vozear da turba delirante, o batuque dos
tambores ou a melopeia encantatória das flautas...
Era o momento de pôr à prova a destreza de mãos e
surripiar umas carteiras!
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BERLIM
morreu a nove
[Adolfo Luxúria Canibal / Carlos Fortes]
Berlim, Berlim morreu a nove.
Cenário:
Yorckstr... sucessão de viadutos de ferro
Enegrecidos pela ferrugem,
Onde as velhas linhas para leste,
Entregues à voracidade do tempo,
Se equilibram, sobranceiras,
Os carris retorcidos pelo matagal.
De quando em vez
O crepúsculo é rasgado pelo S-Bahn para Mariendorf,
Fila de janelas iluminando prostitutas de couro e
lingerie
Em carícias obscenas
Hordas de guerreiros em latex vermelho,
Silhuetas recortadas no lusco-fusco,
Movimentam-se junto ao descampado.
Conan, o Bárbaro, montado no seu Camaro de 70
Cuspindo fogo estrepitosamente,
Vem ver se está tudo bem com as suas pequenas.
Do imbiss do turco
Ouve-se a rádio anunciar que em Postdamerplatz o
muro está a cair.
Que faço eu aqui
Com as mãos manchadas de sangue?
Berlim, Berlim: morreu a nove.
PARIS
amour à mort
[Adolfo Luxúria Canibal / Carlos Fortes]
R. Oberkampf.
A cidade maquilha-se. De sombras.
De tráfego. A crescer no Boulevard.
Ensurdece a chambre de bonne
Contra camião em descargas.
Apitos. Vozes iradas. Gritos.
Revolteiam. Fustigam. Folhas d'Outono.
Place de la République.
Vibra o tráfego. Intenso. No ar.
Na esplanada. Na turba que passa.
Sentado. Descanso o olhar.
Perturbado. No cartaz da Clio.
Na beleza da rapariga.
Descubro. Olvidadas memórias.
Le Boulevard Voltaire.
Evoque toute une littérature
De Lautrèamont à Baudelaire
La place de Clichy
Nous rappele Henry Miller
Et le pont Mirabeau
La joie d'une chanson.
On voit Rimbaud
Dans les rives de la Seine
Se promener
Avec le fantôme d'un poème
Et là bas, à Saint-Germain
Boris Vian
Qui Joue aux américains.
On voit Toulouse-Lautrec.
On voit Adèle Blanc-Sec.
Et on se trouve, comme pour hasard
Dans un film de Godard...
Paris...
La ville des Rêves!...
Ville d'images
Eternel représantation
De l'amour toujours passion;
C'était là que j'ai decapité
Ma bien-aimèe
Et je me suis imprégné
De son sang chaud
Dans un serment
D'amour ardent,
D'amour à mort...
Quai de la Rapée.
Longínquo. O burburinho da cidade.
Desperta-me. Uma barcaça.
Do torpor em que mergulhara.
Aqui. Degolei a minha amada.
Untei-me. Com seu sangue quente.
Jurei. Amor eterno.
ISTAMBUL
um grito
[Adolfo Luxúria Canibal / Carlos Fortes]
Istambul, 2.45 da manhã. O ininteligível vozear da
turba multicolorida do Grande Bazaar, na sua azáfama
mercantil, e o insistente zumbido provocado pela
amálgama de apitos e motores dos veículos a cruzarem
a ponte Galata, deram lugar à quietude. Da janela do
quarto avista-se o porto e as milhentas luzes dos
navios ancorados; a cidade mergulha em socalcos até
ao Bósforo, com os minaretes das mesquitas a
riscarem o céu. Está um calor infernal, abafado. Uma
ligeira aragem transporta uma longínqua canção
árabe, que entra pelo quarto na sua hipnótica
languidez... De repente, um grito!
Istambul, 2.45 da manhã. Omar está a dormir, um
braço dependurado para fora do leito. Era o que ele,
Mustafá, devia estar a fazer. Mas o maldito calor e
a excitação em que se encontra impedem-no de
adormecer. Até ao momento, tudo correra bem - já
tinham a loira que o Emir Alif Keita encomendara e,
a julgar pela amostra, ele ia ficar satisfeito. No
entanto, não conseguia deixar de se preocupar com o
dia seguinte, com a longa jornada de Istambul até ao
Emirato - mais uma vez, pôs-se a rever mentalmente o
percurso, sobretudo as partes mais complicadas como
a passagem para o Irão ou a tomada do barco em
Linga. Mas, com a ajuda de Alá, havia de correr tudo
bem. Reconfortado por este pensamento, Mustafá
começa a ceder ao cansaço, os olhos a fecharem, a
cabeça a pender... De repente, um grito!
Istambul, 2.45 da manhã. Não entendia como pudera
acompanhar tão facilmente os dois turcos que
conhecera no jardim da universidade. É verdade que
se sentia particularmente excitada, depois de uma
manhã de compras com todas aquelas mãos que
aproveitavam para a afagar enquanto a ajudavam a
provar uma peça de roupa ou um artefacto de
joalheria, mas isso não explicava a leviandade com
que os seguira. Tinha sido bom, é certo, mas devia
ter-se precavido, avisado alguém - qualquer coisa
menos ter ido como fora. Agora, aprisionada, sem
saber o que querem dela ou o que lhe poderá
acontecer, não há ninguém para dar pela sua falta.
Mesmo que do hotel participem o seu desaparecimento,
não deixou qualquer pista que permita encontrá-la.
Está entregue a si própria. E o raio das cordas que
estão tão bem apertadas... De repente, um grito! O
seu grito.
SHAMBALAH
o reino da luz
INSTRUMENTAL |